
Ações militares contra a Venezuela revelam continuidade histórica da hegemonia norte-americana na região.
Análise do Tema
As ofensivas dos Estados Unidos na América Latina ganharam novo fôlego durante o segundo mandato de Donald Trump, mas seguem sustentadas por uma lógica histórica já conhecida: a manutenção da hegemonia norte-americana sobre sua zona de influência. Apesar do discurso mais direto e das ações militares explícitas, o fundamento estratégico permanece alinhado a doutrinas que moldam a política externa dos EUA há mais de um século.
Desde a Doutrina Monroe, no século XIX, e seu desdobramento com o Corolário Roosevelt, Washington estabeleceu como princípio a limitação da autonomia dos países latino-americanos sempre que interesses estratégicos estivessem em jogo. O atual governo Trump apenas retoma essa tradição com menos filtros diplomáticos e maior disposição para o uso da força.
No início de dezembro, Trump elevou o tom ao declarar que países envolvidos na produção ou no fornecimento de drogas para o mercado norte-americano poderiam ser alvos de ataques militares. Sob o discurso de combate ao “narcoterrorismo”, o presidente afirmou que a Venezuela não seria o único alvo possível, ampliando o alcance das ameaças para toda a região.
A retórica se converteu em ação no dia 3 de janeiro de 2025, quando forças norte-americanas bombardearam alvos na Venezuela e capturaram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Ambos foram indiciados por uma Corte em Nova York por supostos crimes relacionados ao tráfico internacional de drogas, embora até o momento não tenham sido apresentadas provas públicas que sustentem as acusações.
Paralelamente, observa-se uma expansão significativa da presença militar dos Estados Unidos no Caribe e em áreas estratégicas da América Latina. A operação, oficialmente justificada como repressão a cartéis, envolve cerca de 15 mil militares, além de caças, navios de guerra e o porta-aviões USS Gerald Ford, o maior do mundo.
Desde setembro, as Forças Armadas norte-americanas afirmam ter destruído mais de 24 embarcações classificadas como ligadas ao tráfico internacional. O número de mortos decorrentes dos bombardeios já ultrapassa 100, segundo estimativas divulgadas, embora evidências concretas que comprovem a ligação direta dessas embarcações com o narcotráfico ainda não tenham sido tornadas públicas.
O cenário reforça a leitura de que, independentemente do presidente em exercício, a política dos Estados Unidos para a América Latina segue orientada pela lógica do controle estratégico, da dissuasão e da intervenção seletiva. A diferença, no governo Trump, está na disposição de assumir publicamente esse papel, mesmo ao custo de tensões diplomáticas, violações de soberania e instabilidade regional prolongada.

