
Novas taxas entre R$ 750 e R$ 4.500 por evento encarecem inscrições e reduzem o acesso à prática esportiva.
Análise do Tema
A partir deste mês, organizar uma corrida de rua no Brasil ficou oficialmente mais caro. Organizadores de eventos esportivos passaram a ser obrigados a pagar taxas que variam de R$ 750 a R$ 4.500 por prova, dependendo do porte do evento. Na prática, porém, não há mistério sobre quem arca com essa conta: o próprio corredor.
O impacto é direto e imediato. Inscrições mais caras, redução no número de provas e desestímulo tanto para organizadores quanto para atletas amadores. Sob o discurso de “organização”, “padronização” e “segurança”, o que se consolida é mais burocracia estatal e mais arrecadação em cima de uma atividade que deveria ser incentivada, não penalizada.
Corridas de rua são uma das formas mais acessíveis de prática esportiva. Não exigem grandes estruturas, promovem saúde, integração social e ocupação positiva dos espaços públicos. Ainda assim, o Estado opta por tratar esse tipo de evento como fonte de receita, e não como política de bem-estar e prevenção em saúde.

O contraste internacional é evidente. Em diversos países, governos locais reduzem taxas, oferecem apoio logístico e estimulam eventos esportivos justamente para diminuir gastos futuros com saúde pública. No Brasil, a lógica é inversa: primeiro se taxa, depois se discursa sobre qualidade de vida.
Essa mentalidade arrecadatória revela uma visão distorcida do papel do Estado. Em vez de facilitar iniciativas da sociedade civil, cria-se um emaranhado de exigências que inviabiliza pequenos organizadores e concentra o mercado em grandes empresas, afastando atletas iniciantes e populações de menor renda.
Mais grave ainda é a mensagem simbólica transmitida: até correr virou privilégio. O esporte, que deveria ser ferramenta de inclusão, saúde e cidadania, passa a ser tratado como atividade tributável, sujeita à mesma lógica de exploração fiscal que já sufoca quem trabalha e produz.
Não se trata de organização, mas de escolha política. Quando o Estado prefere taxar o esporte em vez de incentivá-lo, fica claro que a prioridade não é o cidadão, mas o caixa.
Mais uma vez, a conta sobra para quem só queria fazer algo simples: calçar um tênis e correr.

