Relatório oficial confirma torturas, prisões arbitrárias e detenções de crianças na Venezuela.
Análise do Tema
Durante anos, setores da esquerda brasileira recorreram à Organização das Nações Unidas como escudo retórico para relativizar ou negar o caráter autoritário do regime de Nicolás Maduro. A ausência de uma condenação explícita era usada como argumento para sustentar a narrativa de que não haveria ditadura na Venezuela, apenas “conflitos políticos internos”.
Essa estratégia entrou em colapso com a divulgação do mais recente relatório da ONU. O documento é direto e contundente ao apontar a existência de prisões arbitrárias, tortura sistemática, perseguição política e graves violações de direitos humanos promovidas pelo Estado venezuelano. Entre os dados mais chocantes está a detenção de ao menos 158 crianças, incluindo menores com deficiência, submetidas a condições incompatíveis com qualquer padrão civilizatório.
O relatório não parte de opiniões ideológicas nem de disputas eleitorais. Trata-se de uma investigação conduzida por um organismo internacional frequentemente citado pela própria esquerda como autoridade máxima em direitos humanos. Ainda assim, a reação do governo Lula e de seus aliados foi marcada pelo silêncio, pela relativização e por uma diplomacia cautelosa que evita qualquer condenação direta ao regime chavista.
O contraste é evidente. Quando relatórios da ONU criticam governos de direita, a esquerda os utiliza como prova definitiva de abusos e exige sanções imediatas. Quando o mesmo organismo expõe crimes cometidos por um aliado ideológico, a resposta passa a ser o constrangimento, a omissão ou a tentativa de desviar o foco do conteúdo denunciado.
A postura do governo brasileiro reforça a percepção de seletividade moral. O discurso de defesa dos direitos humanos perde credibilidade quando aplicado apenas contra adversários políticos, enquanto violações graves cometidas por regimes amigos são tratadas com tolerância diplomática.
O relatório da ONU coloca o debate em outro patamar. Não se trata mais de versões, disputas narrativas ou acusações partidárias. Os crimes estão documentados por uma instituição internacional reconhecida, desmontando o argumento de que as denúncias seriam exageros ou construções da oposição.
Diante disso, insistir na defesa ou relativização do regime de Maduro deixa de ser ingenuidade política e passa a configurar cumplicidade moral. Direitos humanos não podem ser seletivos nem condicionados à afinidade ideológica. Ou são universais, ou se transformam em instrumento de conveniência política.
A ONU falou de forma clara. O silêncio que se segue revela mais do que qualquer discurso.

