
Especialista aponta limites da influência americana e risco de fortalecimento do discurso nacionalista.
Análise do Tema
O professor Erick Langer, da Universidade de Georgetown, avaliou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deve tentar influenciar o cenário político brasileiro com vistas às eleições de 2026. Segundo o acadêmico, porém, essa movimentação pode produzir um efeito inverso ao desejado, fortalecendo o sentimento nacionalista e, paradoxalmente, dificultando o avanço da direita associada a interesses externos.
A análise parte da premissa de que o Brasil ocupa uma posição estratégica na América Latina e no cenário internacional, o que reduziria a capacidade de ingerência direta de Washington sobre a política interna do país. Para Langer, diferentemente de nações mais dependentes econômica ou militarmente dos Estados Unidos, o Brasil dispõe de peso diplomático, mercado interno e projeção regional suficientes para funcionar como contrapeso às pressões externas.
O argumento central é que qualquer tentativa explícita de interferência por parte de Trump poderia ser explorada politicamente pelo governo Lula e pela esquerda brasileira como prova de ameaça à soberania nacional. Esse tipo de narrativa, historicamente, tende a mobilizar setores da opinião pública sensíveis ao discurso de independência e autodeterminação, ainda que o próprio governo petista mantenha alinhamentos seletivos com regimes autoritários e interesses estrangeiros quando lhe convém.
A avaliação também expõe um dilema estratégico para a direita brasileira. A associação direta com Trump, embora agrade parte do eleitorado ideologicamente alinhado ao conservadorismo global, pode se tornar um passivo eleitoral caso seja explorada como subserviência a interesses externos. Em um país com forte tradição de nacionalismo retórico, esse risco não é desprezível.
Ao mesmo tempo, a fala do professor evidencia uma contradição recorrente no debate político: a esquerda denuncia qualquer suposta influência americana, mas relativiza ou silencia diante de ingerências de regimes como China, Rússia e Venezuela. Ainda assim, do ponto de vista eleitoral, o discurso anti-imperialista segue sendo uma ferramenta eficaz de mobilização simbólica.
A análise de Langer sugere que o fator decisivo não será apenas a posição de Trump, mas a capacidade dos atores políticos brasileiros de controlar a narrativa. Caso a direita consiga dissociar seus projetos internos de qualquer tutela estrangeira e focar em pautas concretas — economia, segurança, inflação e corrupção —, o impacto de eventuais declarações externas tende a ser limitado.
No fim, o alerta do professor não é sobre a força de Trump no Brasil, mas sobre como o uso político dessa imagem pode redefinir o debate eleitoral. Em um ambiente polarizado, símbolos importam tanto quanto propostas. E, nesse jogo, qualquer passo em falso pode custar caro.

