
Possível inquérito sobre quebra de sigilo levanta suspeitas de abuso de poder e intimidação institucional.
Análise do Tema
Em meio a mais uma controvérsia envolvendo o Supremo Tribunal Federal, o ministro Alexandre de Moraes volta ao centro das atenções sob acusações de abuso de poder e perseguição seletiva. Desta vez, a reação do magistrado ocorre após acessos do Coaf e da Receita Federal a dados financeiros que envolveriam, entre outros pontos sensíveis, informações do escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e negócios ligados à família do ministro Dias Toffoli.

Sob a alegação de quebra indevida de sigilo fiscal, Moraes cogita a abertura de um inquérito para investigar os acessos, apesar de tais procedimentos serem, em tese, legais, rastreáveis e rotineiros dentro dos mecanismos de controle do Estado, especialmente em um governo que defende publicamente a fiscalização e o combate a ilícitos financeiros. Para críticos, a iniciativa reforça a imagem de um Judiciário que reage com rigor quando seus próprios membros são alvo de escrutínio, mas age com complacência em outros casos.
A controvérsia ganha contornos ainda mais delicados pelo fato de Moraes assumir o plantão judiciário justamente no momento em que a notícia se torna pública. Nos bastidores, cresce a percepção de que o eventual inquérito teria caráter mais retaliatório do que investigativo, funcionando como instrumento de intimidação contra órgãos de controle e servidores que cumprem funções legais de fiscalização.
O episódio também expõe divisões internas no STF. Há ministros que questionam a real necessidade da apuração e alertam para o risco de transformar a Corte em instância de autoproteção corporativa. A sociedade, por sua vez, passa a questionar se não há um padrão recorrente: sigilo máximo quando envolve membros do Judiciário, rigor extremo quando se trata de cidadãos comuns, parlamentares ou adversários políticos.

Críticos lembram que o próprio Alexandre de Moraes já utilizou relatórios do Coaf como base para decisões passadas, o que torna a reação atual ainda mais controversa. A mudança de postura alimenta acusações de incoerência e seletividade, reforçando a tese de que o poder concentrado nas mãos de poucos ministros tem sido usado sem os freios institucionais adequados.
O caso amplia o desgaste da imagem do Supremo e aprofunda o debate sobre limites, transparência e accountability no Judiciário brasileiro. Em um ambiente já marcado por censura, inquéritos eternos e decisões monocráticas de alto impacto político, a tentativa de blindagem de interesses pessoais agrava a percepção de que parte da elite judicial opera acima das regras que impõe aos demais.

