
Ministros defendem “coerência” após benefício concedido a Collor, enquanto STF mantém silêncio e tensão política cresce.
Análise do Tema
Parte do primeiro escalão do governo Lula passou a defender, de forma reservada, que o ministro Alexandre de Moraes autorize o ex-presidente Jair Bolsonaro a cumprir eventual pena em regime domiciliar. A movimentação, segundo relatos de bastidores, não nasce de empatia política, mas da percepção de que o sistema começa a se tornar incoerente até mesmo aos olhos de seus próprios operadores.

A avaliação interna de ao menos três ministros é direta: após a concessão de prisão domiciliar ao ex-presidente Fernando Collor de Mello, torna-se difícil sustentar tratamento diferente para Bolsonaro sem expor um evidente duplo padrão. Ambos foram chefes do Executivo, ambos possuem idade avançada e ambos alegam questões de saúde — mas apenas um recebeu o benefício.
Desde a última quinta-feira (15), Bolsonaro cumpre pena na chamada “Papudinha”, unidade da Polícia Militar no Complexo da Papuda, em Brasília. A permanência do ex-presidente no local, mesmo com pressão de familiares, aliados e agora de setores do próprio governo, amplia o desgaste institucional e reforça a percepção de seletividade judicial.
O silêncio de Alexandre de Moraes até o momento não reduz a tensão. Pelo contrário: alimenta a leitura de que decisões penais no Brasil deixaram de seguir critérios objetivos e passaram a depender do personagem envolvido. Quando a própria base governista começa a falar em “coerência”, é sinal de que o modelo atual está politicamente insustentável.
A tentativa de equalizar o tratamento a Bolsonaro também revela um cálculo estratégico do Planalto. A manutenção do ex-presidente em regime fechado, sob holofotes permanentes, segue fortalecendo a narrativa de perseguição política — algo que, na prática, tem ampliado o apoio popular ao campo conservador e convertido antigos isentos em críticos do sistema.
Além disso, a comparação com Collor é inevitável e corrosiva. O mesmo Judiciário que flexibilizou o cumprimento de pena para um ex-presidente condenado por corrupção agora enfrenta dificuldades para justificar rigidez extrema contra outro, por crimes de natureza política. A discrepância mina a credibilidade institucional e reforça a ideia de justiça com régua ideológica.

A discussão sobre prisão domiciliar não é apenas jurídica — é profundamente política. O caso Bolsonaro tornou-se um teste de legitimidade para o STF, para o governo Lula e para o próprio Estado Democrático de Direito que ambos dizem defender. Quanto mais o critério parecer seletivo, maior será a reação social.
No fim, o que se vê é um sistema pressionado por suas próprias contradições. A insistência em tratar adversários como exceção pode até satisfazer setores ideológicos no curto prazo, mas cobra um preço alto em confiança pública. E, como a história recente mostra, quando a justiça deixa de parecer justa, o efeito costuma ser exatamente o oposto do desejado.

