
Visitas ao Planalto, reunião fora da agenda e resistência a CPMI ampliam questionamentos sobre a conduta do governo e a necessidade de apuração independente.
A conexão entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Banco Master deixou de ser apenas especulação de bastidor e passou a ser sustentada por registros oficiais e apurações jornalísticas. Reportagens indicam que Daniel Vorcaro, controlador do banco, e seu pai estiveram no Palácio do Planalto ao menos quatro vezes desde 2023. Há ainda relatos de uma reunião no fim de 2024 fora da agenda oficial, articulada por Guido Mantega e com a presença de Gabriel Galípolo, então indicado para presidir o Banco Central.

Esse ponto importa porque agenda pública é instrumento básico de transparência. O governo afirma que registros de entrada não comprovam audiência com o presidente. Tecnicamente, é verdade. Politicamente, não resolve. Se não houve nada além do normal, por que a reunião não constava na agenda e qual era a pauta? Em temas sensíveis ao sistema financeiro, a ausência de publicidade amplia dúvidas em vez de dissipá-las.
A análise objetiva do caso se agrava quando entram em cena questionamentos envolvendo o ministro Ricardo Lewandowski. Reportagens levantaram dúvidas sobre contratos atribuídos ao escritório ligado à família do ministro com o Banco Master, reacendendo o debate sobre potencial conflito de interesses. Não se trata de prejulgamento: se não houve irregularidade, documentos e explicações objetivas resolvem. Quando há dúvida relevante, o caminho institucional é apurar com transparência.
O impacto no cidadão aparece na confiança — ou na falta dela — nas instituições. Relações pouco claras entre governo e agentes financeiros pressionam a credibilidade do país, afetam expectativas, investimentos e a percepção de risco. Além disso, a resistência do PT a uma CPMI reforça a leitura de blindagem política. CPMI não é condenação, é fiscalização. Barrar investigação antes de começar não protege a democracia; enfraquece-a.
O fechamento desse cenário é inevitavelmente provocativo. O país já conhece esse roteiro: Mensalão e petrolão terminaram com aliados investigados enquanto o presidente sustentava o discurso do “eu não sabia”. Em episódios mais recentes, apurações envolvendo o entorno presidencial reacendem a sensação de repetição — crises encostam no Planalto, mas a responsabilidade nunca chega ao topo.
No fim, a pergunta permanece simples e objetiva: se o governo se diz inocente, por que teme a apuração? Transparência não é favor, é obrigação. Agenda aberta, pauta explicada, documentos apresentados e investigação permitida. Quem não deve, não se esconde.

