Soraya Thronicke joga a toalha: senadora desiste da reeleição no MS após afundar em pesquisas e liderar rejeição
Isolada politicamente após romper com Bolsonaro e flertar com o governo Lula, parlamentar aparece em último lugar entre pré-candidatos e admite: não há caminho competitivo para 2026.
Com desempenho entre 6% e 8% das intenções de voto e rejeição próxima de 15%, Soraya Thronicke oficializa o recuo da disputa ao Senado por Mato Grosso do Sul. O movimento consolida uma das quedas mais rápidas do ciclo político recente e escancara o custo de abandonar a base bolsonarista sem construir alternativa à esquerda.

A senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) decidiu não disputar a reeleição ao Senado por Mato Grosso do Sul em 2026. O recuo, comunicado a aliados e antecipado nesta semana, encerra um dos processos de desidratação política mais rápidos entre parlamentares em atividade — e sela, ao menos por ora, o fim de um ciclo iniciado com a vitória expressiva de 2018.
A decisão não foi resultado de um cálculo isolado. Chegou depois de meses de pesquisas ruins, de uma rejeição estadual em ascensão e da constatação, feita pelo próprio núcleo de campanha da senadora, de que não existe hoje caminho eleitoral competitivo para mantê-la no Senado.
O que dizem as pesquisas
Levantamentos recentes no estado colocam Soraya Thronicke em última colocação entre os principais pré-candidatos ao Senado por Mato Grosso do Sul, com intenções de voto oscilando entre 6% e 8%. No mesmo cenário, sua rejeição alcança cerca de 15% — o maior índice entre os nomes cotados.
A leitura política interna, feita por assessores que acompanham o mandato desde o início, é direta: com esse patamar de desempenho, a senadora terminaria a disputa fora do segundo lugar e sem tempo hábil para reverter uma imagem hoje associada ao "trânsito" entre campos ideológicos.
"Não há espaço para nós na eleição deste ano" — resumo feito por interlocutores próximos à senadora, ouvidos pela reportagem.
A ruptura com Bolsonaro e o abraço em Lula
Eleita em 2018 sob o guarda-chuva bolsonarista, com discurso conservador e apoio explícito ao então candidato Jair Bolsonaro, Soraya Thronicke construiu sua base sobre um eleitorado antipetista, evangélico e do agronegócio sul-mato-grossense. Seis anos depois, esse mesmo eleitorado passou a tratá-la como adversária.
A ruptura veio em várias etapas: divergências públicas com o ex-presidente ainda em 2022, aproximação com o governo Lula em votações-chave no Congresso e presenças em atos e cerimônias oficiais do Executivo federal. Para o eleitorado que a colocou no Senado, o recado foi lido como traição — e o preço apareceu nas pesquisas.
A esquerda não a adotou
O outro lado da equação também falhou. Ao romper com o bolsonarismo, Soraya não conseguiu ser incorporada organicamente pelo campo governista. Em Mato Grosso do Sul, PT, PSB e aliados já operam com pré-candidatos próprios ou palanques definidos, e a senadora ficou em uma espécie de terra de ninguém eleitoral: rejeitada pela direita, tolerada — mas não abraçada — pela esquerda.
Sem legenda com densidade eleitoral própria em MS, sem palanque local competitivo e sem aliança formalizada com o governo federal, o cenário para 2026 se tornou insustentável do ponto de vista de campanha e financiamento.
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Análise: o custo de trocar de campo sem construir o próximo
O caso Soraya Thronicke vira, dentro do Congresso, uma espécie de estudo de caso sobre migração ideológica em meio a mandato. Trocar de campo é legítimo — e comum na história política brasileira. Mas fazê-lo sem consolidar um novo palanque, sem trocar de sigla em momento adequado e sem entregar bandeiras concretas a um eleitorado alternativo tende a produzir o pior dos dois mundos: perde-se a antiga base e não se conquista a nova.
A rejeição de 15% em MS não é um acidente estatístico. É a resposta acumulada de um eleitorado que se sentiu deslocado do voto que deu em 2018 e não encontrou, no mandato, entrega compatível com a nova rota adotada pela senadora.
O que vem depois do recuo
Com a desistência, o tabuleiro do Senado em Mato Grosso do Sul se reorganiza rapidamente. Nomes ligados ao PL, ao PP e ao próprio grupo governista passam a disputar o espaço deixado, enquanto o entorno de Soraya avalia caminhos alternativos — de uma disputa a cargo majoritário estadual até uma pausa política formal, com foco em articulação partidária nacional.
Ainda no exercício do mandato até o fim de 2026, a senadora deve concentrar esforços em pautas de bandeira pessoal — direitos das mulheres, combate à violência doméstica e temas de consumo — buscando reconstruir capital político longe do desgaste eleitoral imediato.
Perguntas para reflexão
• Uma parlamentar pode trocar de campo ideológico no meio do mandato sem pagar o preço na urna?
• Até que ponto o eleitor bolsonarista tolera rupturas — e quando passa a tratá-las como traição?
• O caso Soraya sinaliza que a esquerda tem dificuldade estrutural de absorver ex-aliados do bolsonarismo?
• Que aprendizado outros senadores em desgaste podem tirar desse recuo antecipado?
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FAQ
Soraya Thronicke não vai concorrer em 2026? Não ao Senado por Mato Grosso do Sul. A senadora decidiu não disputar a reeleição.
Quais eram os números dela nas pesquisas? Entre 6% e 8% de intenção de voto e cerca de 15% de rejeição, na última colocação entre os pré-candidatos.
Por que ela perdeu apoio? Rompeu com Bolsonaro, aproximou-se do governo Lula e não conseguiu consolidar base à esquerda em MS.
Ela continua senadora? Sim, o mandato vai até o fim de 2026.
Pode disputar outro cargo? Aliados avaliam cenários, incluindo eleição estadual futura, mas nada está definido.
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3 Comentários
- C
Carlos R. há 1 hora
Excelente cobertura. Era o que faltava na imprensa brasileira: notícia direta, sem viés.
- M
Mariana T. há 3 horas
Concordo em parte. O texto poderia detalhar mais os impactos regionais da medida.
- J
João P. há 5 horas
Parabéns ao Clicja pela apuração. Vou compartilhar com meus contatos.